Uso de armas

Quando comecei a aprender sobre Natural Horsemanship, passei uma fase em que me orgulhava de “não usar armas” com o meu cavalo. As armas eram as chamadas ajudas artificiais, o stick e os esporins. Hoje em dia, gosto de montar com esporins e às vezes até uso um stick, mas tenho princípios muito rigorosos sobre o uso desses meios.

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Em primeiro lugar, há uma condição muito importante para podermos usar essas armas: auto-controle. Se temos um chicote ou um stick na mão, há sempre o risco de castigarmos o cavalo num momento de raiva. Por essa razão, o famoso encantador de cavalos Monty Roberts não permite a presença de nenhum chicote nem stick nas suas instalações na Califórnia.

Tendo auto-controle, podemos usar as armas em condições específicas: O esporim por exemplo serve para especificar uma ajuda da perna. Em vez de usar a barriga da perna ou o calcanhar inteiro, tocando numa superfície relativamente grande da barriga do cavalo, podemos usar o esporim e tocar em apenas um ponto concreto, escolhendo um ponto mais à frente do cavalo (para influenciar a espádua) ou mais para trás da cilha (para influenciar a garupa.) O stick pode ser usados na mesma lógica, especificando as nossas ajudas.

Mas o stick também tem um papel relevante na impulsão do cavalo, no “speed control”. No Western, usamos sempre uma ordem sonora em primeiro lugar. Por exemplo quando quero que o meu cavalo ande mais depressa, dou um estalinho com a boca. Ao mesmo tempo, pressiono os meus músculos, olho em frente e tento exercer energia para ajudar o movimento. Se o cavalo não responder com aceleração, tenho que perceber se o cavalo sabe o que estou a pedir ou se possivelmente não sabe. Se há alguma hipótese de o cavalo não saber (por exemplo porque é um poldro ou porque eu ainda estou a aprender a dar a ajuda da forma correta), devo repetir o meu pedido, o estalinho, até o cavalo entender. Mas se eu tenho toda a certeza que o cavalo sabe o que estou a pedir e é fisicamente capaz de cumprir, tenho que aumentar o meu nível de exigência. Em vez de repetir o meu pedido simpaticamente, vou dar um toque com o stick para reforçar o pedido. E prefiro dar um único toque forte do que estar a bater com pouca convicção a sessão inteira. Se a seguir ao estalinho não acontece nada, eu espero três segundos e dou um toque forte com o stick. Podem ter a certeza que a partir daí, o cavalo vai responder ao meu estalinho à primeira.

Cavaleiros que passam o tempo todo aos estalinhos e/ou a usar o stick com pouca convicção fazem me lembrar aqueles pais que estão constantemente a chatear as crianças no mesmo tom de voz: “vá lá Francisco, arruma o quarto, vá lá. A mãe já pediu cinco vezes. Vá lá, arruma o quarto.” A única coisa que o Francisco aprende é a ignorar as palavras da mãe. É a mesma coisa com o cavalo. Se ele sabe o que estamos a pedir e nós deixamo-lo ignorar o pedido, ele aprende que pode ignorar.

O uso inteligente de ajudas artificiais desta forma cuidadosa pode ajudar a sensibilizar um cavalo pouco sensível. Posso necessitar desta técnica quando monto um cavalo que foi ensinado por pessoas pouco sensíveis ou um cavalo que é montado por muitas pessoas diferentes. Mas à partida todos os cavalos são sensíveis e se começarmos logo no desbaste a aguardar que eles percebam as ajudas finas, nunca vamos precisar das armas. Por isso: se o cavalo não sabe, esperamos e repetimos pacientemente a ajuda fina!