Estabelecer limites

Há quem diga que lidar com os nossos cavalos tem efeitos terapêuticos. Não duvido dessa ideia e penso que o estabelecimento de limites é uma área onde os paralelos entre o que fazemos com os nossos cavalos e o que fazemos com as pessoas à nossa volta são muito fortes. Mas mesmo assim, vou me limitar a falar apenas do aspecto equestre da questão porque prefiro deixar a parte psicológica a cada um.

A razão da importância dos limites na nossa interacção com os cavalos baseia-se na organização da manada. Os cavalos vivem numa estrutura muito clara e hierárquica. Um outro cavalo ou é superior ou inferior, não havendo igualdade. A posição respectiva é frequentemente discutida e definida por quem conseguir fazer mexer o outro. Por exemplo, se um cavalo superior chegar à comida, o inferior sai do caminho.

É fundamental que a hierarquia de uma manada esteja sempre actualizada, sendo o mais forte e esperto o líder. Por isso, as “segundas linhas” têm a obrigação de testar os limites, para verificar que o líder ainda merece ser líder.

Legend

Com o meu poldro de um ano, Glo’s Legend.

Quando estamos com o nosso cavalos, somos uma mini-manada e podemos ser o líder ou deixar o cavalo ser o líder. Assumindo que não é muito boa ideia deixar o cavalo ser o líder, vamos nós tentar assumir a posição.

Há cavalos com personalidades muito submissas que aceitam facilmente que o outro quer ser o líder, mas também há muitos que têm algum potencial de liderança e que vão questionar a nossa posição mais ou menos frequentemente. A forma de questionar muitas vezes toma a forma de invasão do nosso espaço, de passar por cima dos nossos limites físicos.

Temos que entender que o cavalo está simplesmente a perguntar se ainda temos a certeza de que temos capacidade de ser líder. Ele não está a ser mau, mas simplesmente a fazer o seu trabalho. Se não damos atenção à pergunta, é natural que o cavalo assuma que pode ultrapassar os limites. Imagine que o seu filho adolescente pergunta se se pode levantar da mesa do jantar, mas nenhum dos pais ouve a pergunta porque estão envolvidos numa conversa. O filho talvez repita a pergunta, mas se for ignorado mais uma vez, é capaz de decidir que os pais não se vão importar se ele se for embora. Se os pais agora nem notam que ele se foi embora, não se devem admirar que na próxima noite, o filho nem pergunte se pode ir, mas simplesmente vai.

Da mesma maneira, às vezes não ouvimos as perguntas dos nossos cavalos sobre os nossos limites. Imagine agora que está a levar o seu cavalo para a boxe ou para o pasto. No caminho, encontra alguém conhecido e começa a conversar. O cavalo não tem nada para fazer e, ficando impaciente, dá-lhe um ligeiro empurrão com a cabeça contra o seu braço. Estando envolvido na conversa, se calhar nem nota a pergunta e dá um passo para o lado para sair do caminho do cavalo e não ser mais empurrado. O cavalo está surpreendido! Afinal esta pessoa deixa-se manipular por ele e então não deve estar tão segura da sua capacidade de liderança como isso! O cavalo dá mais um empurrão e a pessoa dá um novo passo para o lado. Agora o cavalo tem a certeza que subiu na hierarquia e que consegue mandar. E assim, o cavalo aprende que consegue invadir o nosso espaço sem consequências.

As conclusões são obvias: é fundamental prestarmos atenção à linguagem não verbal do nosso cavalo, principalmente quando ele está a passar os nossos limites ou fazer nos mover. Temos que dar atenção e ouvir a pergunta dele, respondendo com um firme não, sem ficar ofendido. O cavalo não está a ser mau, simplesmente está a fazer o seu trabalho de testar a nossa capacidade de liderança.

Leia no próximo blog como é possível estabelecer esses limites concretamente no nosso dia a dia com os cavalos.

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