Escala da Dor

Um grupo de cientistas desenvolveu uma escala para avaliar a dor nos cavalos. Além de não poder explicar a dor que tem, o cavalo nem se quer faz nenhum barulho para mostrar a sua dor. Sendo um animal de presa, é arriscado mostrar dor, porque é uma fragilidade que aumenta a probabilidade de ser atacado por um predador. Se os cavalos guinchassem ou gritassem com dor, os humanos teriam muito mais vergonha de abusar deles.Horse-Grimace-Scale-behaviours

http://www.horsesandpeople.com.au/article/development-facial-expression-pain-scale#.VHoUAjHz1po

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Estabelecer limites – parte 2

No último blog falei sobre a importância dos limites, mas agora mais concretamente: como devemos defender a nossa posição de liderança?

  • Estabelecer fisicamente o nosso espaço pessoal que o cavalo não pode invadir. Pense em como não gosta quando pessoas estranhas na fila do supermercado se chegam perto de mais. É meio metro, a distância do seu braço? Por mim, a distancia do meu braço é uma boa medida. Se o meu cavalo chegar mais perto do que isso, posso fazer um movimento brusco com o braço para lhe indicar que ele está perto de mais.

  • Não deixar que seja o cavalo a mover o nosso corpo. Se o cavalo avançar na sua direcção, não recue. Mantenha os seus pés firmes no mesmo lugar e faça o cavalo recuar ou desviar-se. A mesma lógica se aplica quando estamos a passar o cavalo à guia ou mesmo durante o maneio. Á guia, quando mudar de mão, não recue face ao seu cavalo, mas sim obrigue o cavalo a mexer-se para o colocar na posição desejada.
  • Sempre escolher o caminho mais curto. Se esse caminho obriga o seu cavalo a sair da sua frente, ainda melhor. Não seja bem educado de mais com o seu cavalo, dando a volta para ele não se ter que mexer.

  • Não deixar o cavalo puxar o nosso corpo, por exemplo seguindo-o com a corda no cabeção. O exemplo mais típico é o cavalo esticar a corda para chegar a um bocadinho de erva, dando mesmo passos e puxando o seu acompanhante humano atrás dele. Pode deixar o seu cavalo pastar à corda à vontade, mas não se deixe puxar!

  • Exigir que o seu cavalo siga sempre e imediatamente quando arranca com a corda na mão. Idealmente deve dar a ordem com a mão na corda para avançar e o seu primeiro passo coincidir com o primeiro passo do cavalo.

Todas essas manobras são de facto exercícios que podem ser praticados e ensinados. Tenho todo o gosto em ajudar se precisarem de ajuda.

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Tango – um follower excepcional

Há pessoas que ficam ofendidas com o cavalo quando este não cumpre as regras automaticamente. Mas o cavalo pode ter aprendido que as pessoas normalmente não exigem respeito e, de qualquer modo, se é um animal minimamente capaz de liderar, ele vai testar a sua competência de líder para assegurar que o carácter mais capaz acaba por ser o líder daquela mini-manada. Se a pessoa fica ofendida, parece-me que é porque assumiu que o cavalo já devia conhecer as regras e não devia por em causa a liderança e possivelmente está a chatear só para chatear. Nunca encontrei um cavalo com capacidade de planear chatear a sua pessoa de propósito. Eles fazem o que têm que fazer para sobreviver. Ter um líder competente e seguro é importante, por isso precisam de testar e se nós humanos falhamos o teste, eles tem que assumir a liderança.

Reconheço que pode ser um grande desafio aprendermos a portar-nos desta forma com o nosso cavalo, quando queremos tanto ser amigo dele. Queremos mimá-lo e tratá-lo bem para ele gostar de nós. Podemos fazer isso em outras áreas, mas não podemos deixar de ser um líder forte e defender os nossos limites físicos por isso. O cavalo vai apreciá-lo muito mais, se se mostrar capaz de ser um líder forte e competente. Com o tempo, o cavalo vai parar de testar a sua competência e vai se submeter à sua liderança. A maioria de cavalos não nasceu para ser líder e vive muito feliz tendo o seu dono como líder competente e seguro.

Estabelecer limites

Há quem diga que lidar com os nossos cavalos tem efeitos terapêuticos. Não duvido dessa ideia e penso que o estabelecimento de limites é uma área onde os paralelos entre o que fazemos com os nossos cavalos e o que fazemos com as pessoas à nossa volta são muito fortes. Mas mesmo assim, vou me limitar a falar apenas do aspecto equestre da questão porque prefiro deixar a parte psicológica a cada um.

A razão da importância dos limites na nossa interacção com os cavalos baseia-se na organização da manada. Os cavalos vivem numa estrutura muito clara e hierárquica. Um outro cavalo ou é superior ou inferior, não havendo igualdade. A posição respectiva é frequentemente discutida e definida por quem conseguir fazer mexer o outro. Por exemplo, se um cavalo superior chegar à comida, o inferior sai do caminho.

É fundamental que a hierarquia de uma manada esteja sempre actualizada, sendo o mais forte e esperto o líder. Por isso, as “segundas linhas” têm a obrigação de testar os limites, para verificar que o líder ainda merece ser líder.

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Com o meu poldro de um ano, Glo’s Legend.

Quando estamos com o nosso cavalos, somos uma mini-manada e podemos ser o líder ou deixar o cavalo ser o líder. Assumindo que não é muito boa ideia deixar o cavalo ser o líder, vamos nós tentar assumir a posição.

Há cavalos com personalidades muito submissas que aceitam facilmente que o outro quer ser o líder, mas também há muitos que têm algum potencial de liderança e que vão questionar a nossa posição mais ou menos frequentemente. A forma de questionar muitas vezes toma a forma de invasão do nosso espaço, de passar por cima dos nossos limites físicos.

Temos que entender que o cavalo está simplesmente a perguntar se ainda temos a certeza de que temos capacidade de ser líder. Ele não está a ser mau, mas simplesmente a fazer o seu trabalho. Se não damos atenção à pergunta, é natural que o cavalo assuma que pode ultrapassar os limites. Imagine que o seu filho adolescente pergunta se se pode levantar da mesa do jantar, mas nenhum dos pais ouve a pergunta porque estão envolvidos numa conversa. O filho talvez repita a pergunta, mas se for ignorado mais uma vez, é capaz de decidir que os pais não se vão importar se ele se for embora. Se os pais agora nem notam que ele se foi embora, não se devem admirar que na próxima noite, o filho nem pergunte se pode ir, mas simplesmente vai.

Da mesma maneira, às vezes não ouvimos as perguntas dos nossos cavalos sobre os nossos limites. Imagine agora que está a levar o seu cavalo para a boxe ou para o pasto. No caminho, encontra alguém conhecido e começa a conversar. O cavalo não tem nada para fazer e, ficando impaciente, dá-lhe um ligeiro empurrão com a cabeça contra o seu braço. Estando envolvido na conversa, se calhar nem nota a pergunta e dá um passo para o lado para sair do caminho do cavalo e não ser mais empurrado. O cavalo está surpreendido! Afinal esta pessoa deixa-se manipular por ele e então não deve estar tão segura da sua capacidade de liderança como isso! O cavalo dá mais um empurrão e a pessoa dá um novo passo para o lado. Agora o cavalo tem a certeza que subiu na hierarquia e que consegue mandar. E assim, o cavalo aprende que consegue invadir o nosso espaço sem consequências.

As conclusões são obvias: é fundamental prestarmos atenção à linguagem não verbal do nosso cavalo, principalmente quando ele está a passar os nossos limites ou fazer nos mover. Temos que dar atenção e ouvir a pergunta dele, respondendo com um firme não, sem ficar ofendido. O cavalo não está a ser mau, simplesmente está a fazer o seu trabalho de testar a nossa capacidade de liderança.

Leia no próximo blog como é possível estabelecer esses limites concretamente no nosso dia a dia com os cavalos.

Uso de armas

Quando comecei a aprender sobre Natural Horsemanship, passei uma fase em que me orgulhava de “não usar armas” com o meu cavalo. As armas eram as chamadas ajudas artificiais, o stick e os esporins. Hoje em dia, gosto de montar com esporins e às vezes até uso um stick, mas tenho princípios muito rigorosos sobre o uso desses meios.

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Em primeiro lugar, há uma condição muito importante para podermos usar essas armas: auto-controle. Se temos um chicote ou um stick na mão, há sempre o risco de castigarmos o cavalo num momento de raiva. Por essa razão, o famoso encantador de cavalos Monty Roberts não permite a presença de nenhum chicote nem stick nas suas instalações na Califórnia.

Tendo auto-controle, podemos usar as armas em condições específicas: O esporim por exemplo serve para especificar uma ajuda da perna. Em vez de usar a barriga da perna ou o calcanhar inteiro, tocando numa superfície relativamente grande da barriga do cavalo, podemos usar o esporim e tocar em apenas um ponto concreto, escolhendo um ponto mais à frente do cavalo (para influenciar a espádua) ou mais para trás da cilha (para influenciar a garupa.) O stick pode ser usados na mesma lógica, especificando as nossas ajudas.

Mas o stick também tem um papel relevante na impulsão do cavalo, no “speed control”. No Western, usamos sempre uma ordem sonora em primeiro lugar. Por exemplo quando quero que o meu cavalo ande mais depressa, dou um estalinho com a boca. Ao mesmo tempo, pressiono os meus músculos, olho em frente e tento exercer energia para ajudar o movimento. Se o cavalo não responder com aceleração, tenho que perceber se o cavalo sabe o que estou a pedir ou se possivelmente não sabe. Se há alguma hipótese de o cavalo não saber (por exemplo porque é um poldro ou porque eu ainda estou a aprender a dar a ajuda da forma correta), devo repetir o meu pedido, o estalinho, até o cavalo entender. Mas se eu tenho toda a certeza que o cavalo sabe o que estou a pedir e é fisicamente capaz de cumprir, tenho que aumentar o meu nível de exigência. Em vez de repetir o meu pedido simpaticamente, vou dar um toque com o stick para reforçar o pedido. E prefiro dar um único toque forte do que estar a bater com pouca convicção a sessão inteira. Se a seguir ao estalinho não acontece nada, eu espero três segundos e dou um toque forte com o stick. Podem ter a certeza que a partir daí, o cavalo vai responder ao meu estalinho à primeira.

Cavaleiros que passam o tempo todo aos estalinhos e/ou a usar o stick com pouca convicção fazem me lembrar aqueles pais que estão constantemente a chatear as crianças no mesmo tom de voz: “vá lá Francisco, arruma o quarto, vá lá. A mãe já pediu cinco vezes. Vá lá, arruma o quarto.” A única coisa que o Francisco aprende é a ignorar as palavras da mãe. É a mesma coisa com o cavalo. Se ele sabe o que estamos a pedir e nós deixamo-lo ignorar o pedido, ele aprende que pode ignorar.

O uso inteligente de ajudas artificiais desta forma cuidadosa pode ajudar a sensibilizar um cavalo pouco sensível. Posso necessitar desta técnica quando monto um cavalo que foi ensinado por pessoas pouco sensíveis ou um cavalo que é montado por muitas pessoas diferentes. Mas à partida todos os cavalos são sensíveis e se começarmos logo no desbaste a aguardar que eles percebam as ajudas finas, nunca vamos precisar das armas. Por isso: se o cavalo não sabe, esperamos e repetimos pacientemente a ajuda fina!  

Lead with a smile

Há muitas formas de “liderar com um sorriso”: Por exemplo, quando vamos buscar o cavalo para trabalhar com ele, é aconselhável termos um sorriso no rosto. Para conseguir desenvolver um bom treino, temos que estar “no momento”, contentes de estar onde estamos e deixar as preocupações do dia-a-dia para trás. Se não estamos a sorrir, provavelmente falta uma destas componentes e convêm tentar criar as melhores condições possíveis para o treino, mesmo se isso começa com um aspecto que pode parecer ligeiramente caricato como forçar um sorriso.

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Também há um sentido mais técnico da expressão “lead with a smile”, que pode ser usado para descrever o “sorriso” que uma corda bamba faz. Vejo muitos cavaleiros a segurar a corda logo abaixo do cabeção, exercendo sempre alguma pressão na cabeça do cavalo. Isso não só é incomodativo para o cavalo (experimente ser levado à mão por alguém que esta constantemente a fazer pressão para que fique ao lado dele) como é uma falta de confiança na obediência do animal. A corda devia ter sempre alguma folga, fazendo o tal sorriso, excepto nas poucas situações onde o cavalo não acompanha exatamente os nossos passos. Se isso não acontece, é uma questão de treino – nosso e deles.

E finalmente há um sentido mais simbólico: gosto de ser o líder dos meus cavalos com um sorriso em vez de com a mão dura e com equipamento para controlo físico do animal. Não há sensações muito melhores do que ter um cavalo a seguir-nos para todo o lado por vontade dele, porque quer estar connosco. Se calhar a única experiência melhor ainda é montar um cavalo sem cabeçada e conseguir fazer tudo o que queremos. Para mim, isso também é liderar com sorriso.

Quem quiser aprender mais sobre cada um desses significados, pode vir ter comigo a Cascais ou Odemira – para umas lições em “Natural Horsemanship“. Nunca gostei muito dessa expressão, e menos ainda da tradução portuguesa “Equitação Natural”. Porque afinal, o que é que tem de natural esta ideia de nos sentarmos às costas de um animal de 500 kg com forte instinto de fuga e queremos ser nós a decidir a direção e a velocidade?

Mas, independentemente do nome que damos à coisa, acredito fielmente em criar uma relação harmoniosa entre cavalo e pessoa e para isso acontecer, temos que aprender a ler e adaptar-nos à linguagem dos cavalos. É afinal disso que se trata quando falamos de “Natural Horsemanship“.

Procurar o erro em nós

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Quando tinha só um cavalo, cheguei à conclusão que o lado esquerdo dele era o lado mau dele: Não encurvava tão bem o pescoço, nem dobrava o corpo em círculo e também se colocava menos bem para a esquerda. À medida que fui tendo mais cavalos, e para minha surpresa, todos tinham o lado mau à esquerda. É natural os cavalos terem um lado mais flexível do que outro, mas todos para a esquerda? Tendo chegado ao quarto cavalo (com lado mau sendo a esquerda), fiz o cálculo da probabilidade disso acontecer: 6,25%. Hm…. afinal o lado mau se calhar era o meu?

Outra questão: se por exemplo o meu cavalo fica sempre nervoso ao passar num local específico, não adianta absolutamente nada ficar nervosa também ou frustrada ou irritada. Todas essas emoções só podem piorar a situação e de certeza não ajudam. Há alguns anos, foi feito um estudo na Suécia, onde mediam os batimentos cardíacos dos cavaleiros e dos cavalos ao passarem a passo dum ponto para outro. A seguir, foi dito aos cavaleiros que um assistente iria abrir um guarda-chuva de repente a meio do caminho. Os batimentos cardíacos dos cavaleiros aceleraram ao chegar a esse ponto, e embora o guarda-chuva nunca tivesse sido aberto, os batimentos cardíacos dos cavalos também aceleraram. Os cavalos são mais influenciados pelas nossas emoções do que pelo que se passa à sua volta?

Aprendi com os humanos que nunca é possível mudar a outra pessoa diretamente. Mesmo se quero mudar o outro, tenho que começar comigo, com a minha comunicação, o meu comportamento. Isso sim, pode influenciar o outro e levá-lo a mudar. Mas o ponto de partida tem que ser em mim. Com os cavalos é parecido: para mudar qualquer coisa no meu cavalo, tenho que pensar o que posso fazer para lhe ajudar. Se o cavalo está nervoso, tenho que ver se não sou eu que já estou a antecipar o problema e devo procurar transmitir calma. Se o cavalo está menos flexível para um lado, tenho que ver se o problema não parte de mim e pensar o que posso fazer para me ginasticar melhor para esse lado. Em todas as situações onde o meu cavalo não responde como eu quero, tenho que procurar primeiro se o erro não está em mim e pensar como posso ajuda-lo. Só assim posso conseguir uma parceria harmoniosa com o meu cavalo.

Lições de 2013

1509224_460913840680108_762720488_nVi uma imagem no face que me fez reflectir sobre o ano de 2013, como aliás é apropriado neste dia. Foi um ano de perdas, mas longe de um ano perdido.

2013 foi um ano cheio de azares para mim e os meus cavalos. Um abcesso de casco que nunca mais curava, a manada toda envenenada por tremocilho que se encontrava escondido no feno, um poldro com quistos ósseos foram apenas alguns dos problemas de saúde que tive que enfrentar no início do ano. Quando uma das minhas melhores éguas morreu em Maio a parir, pensei ter batido no fundo. Foram semanas muito duras a lutar pela vida do poldrinho, mas ele safou-se. Infelizmente, não era o fundo ainda. Esse só atingi quando a minha poldra mais linda partiu a perna no pasto no início de Julho. As hipóteses de ficar bem eram tão pequenas e o sofrimento tanto que tive que pedir ao meu veterinário para a por a dormir.

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Quando coisas más acontecem, só sentimos dor e perguntamos porquê. Meio ano depois, consigo ver como foram lições. Aprendi tanto neste ano, sobre a gestão dos cavalos e a saúde deles. Tornei me enfermeira e ama. Descobri reservas de força dentro de mim que não imaginava existirem. E a capacidade de tomar decisões nos momentos difíceis. Agradeço as lições e parto para 2014 com mais capacidades.